Miguel Albuquerque falava na cerimónia de abertura do Fórum Madeira Global, que decorre sob organização da Direção Regional das Comunidades e Cooperação Externa e que reúne cerca de 400 participantes, representantes das nossas comunidades espalhadas pelo mundo.
Na ocasião, o governante começou por enaltecer os primeiros condecorados “Madeira Global”: José Luís Silva (África do Sul), a título póstumo, João Jesus Marques Luís (Reino Unido) e Felisberto Camacho (Venezuela). Todos eles eminentes membros da comunidade madeirense e portuguesa nos seus países de residência.
E começou por falar do falecido José Luis Silva: «Estive com ele uma vez na África do Sul. E, na ocasião, o interesse do José Luís era tanto na nossa comunidade, que
fomos inclusivamente, por sua intervenção, visitar ao hospital um dos nossos contatos que tinha sido baleado num assalto.
O José Luís era um homem com grande determinação, grande coragem, grande empenho e, sobretudo, uma ligação afetiva e filantrópica aos seus semelhantes. Para além destes argumentos, quero ainda dizer que esta homenagem é justíssima».
Depois, referiu-se a João de Jesus Marques Luís, «um grande empresário no Reino Unido, com grande sucesso, um homem que nunca virou a cara aos seus conterrâneos naquela terra, que sempre manteve uma ligação intrínseca à Madeira e que neste dia será justamente homenageado».
«Por último, o meu inestimável amigo Felisberto Camacho, um grande empresário na Venezuela, um homem que não esquece as suas raízes e continua a fazer uma ligação importantíssima à Madeira, com investimentos de grande qualidade. É um trabalhador incansável e um homem que fez tudo aquilo que tem com o seu trabalho, a sua competência, o seu empenho e a sua luta», elogiou.
O líder madeirense fez ainda questão de agradecer aos oradores Nuno Rogério e Ângelo Correia, sublinhando que vão engrandecer aquele evento.
De seguida, lembrou que «o Governo Regional, desde a primeira hora, agora na recente tragédia na Venezuela, teve um grande foco na ajuda possível aos nossos conterrâneos e em tudo quanto poderíamos fazer para ajudar a nossa comunidade».
Para além disso, fez ainda questão de recordar a todos que a política do seu Governo «é uma política absolutamente contra algumas tendências, que estão a emergir na sociedade portuguesa e na Europa, através de algumas forças políticas que estão a agitar novamente com as bandeiras da xenofobia e do racismo».
Neste sentido, referiu alguns dos discursos a que assistimos recentemente sobre a imigração, «inclusive por um conjunto de zombies - vocês sabem que as redes sociais não puxam muito pelos neurónios – em que se tratava os imigrantes como lixo e que, entre outras “pérolas” desmioladas, faziam um apelo à expulsão de muito dos nossos imigrantes».
«Eu acho que é um discurso perigoso, é um discurso que puxa aquilo que de pior tem o ser humano e nós temos de ter a noção de que não há nenhum madeirense que não tenha tido um familiar que tenha emigrado nos tempos duros, em para sobreviver tinha de se emigrar», sublinhou.
Para Miguel Albuquerque, é uma vergonha esse novo discurso xenófobo contra a migração, contra pessoas».
«E digo isto porque sou, obviamente, a favor de uma imigração controlada e uma imigração onde quem vem para cá viver tem de estar plenamente integrado e com condições de sanidade, de habitação e de trabalho dignas. Portanto, esse controle resulta fundamentalmente de necessidade de dotar essas pessoas de uma integração plena na nossa sociedade», explicou.
Neste sentido, afirmou não poder «aceitar um discurso que faz do imigrante o bode expiatório das taras psicológicas e dos preconceitos que afetam algumas pessoas». Portanto, exortou, «se as pessoas estão mal, ou vão ao psiquiatra ou trabalhem mais para alcançarem aquilo que querem, não é utilizando os imigrantes e a imigração para resolver problemas eleitorais e problemas políticos».
Desta forma, fez questão de reiterar «que a Madeira continuará a acolher e a tratar condignamente dos seus imigrantes».
Por outro lado, lembrou que defende que Portugal – «está aqui o nosso secretário de Estado das Comunidades» – deveria reforçar a sua política em rede, aproveitando as circunstâncias do nosso país, e da Madeira em particular, ser uma nação pluricontinental.
«Há madeirenses e portugueses em todo o lado. E, à semelhança do que os israelitas têm feito, aproveitando as segunda e terceira gerações de emigrantes, nós temos de reforçar a nossa rede, porque essa rede é fundamental para a afirmação de Portugal como potência média no mundo», explicou.
Miguel Albuquerque lembrou que «Portugal não é um país continental, é um país atlântico». E complementou: «Vamos ter de explicar isto várias vezes, porque há certas pessoas no Continente que ainda não entenderam. E nesta dimensão, sendo um país atlântico, um país arquipelágico, é fundamental perceber que uma das funções fundamentais de Portugal é a sua projeção no mundo, através da sua diáspora».
Porque, para o governante, «a diáspora dá projeção política ao País e é essencial para a sua afirmação geopolítica». Da mesma forma que – prosseguiu – «as ilhas dos Açores e das Madeira são essenciais para a afirmação geopolítica do país, a nossa Diáspora vem reforçar o posicionamento geopolítico do país».
Até porque «não há ninguém que se esqueça que temos madeirenses na Austrália, temos madeirenses no Brasil, temos madeirenses na América, temos madeirenses na África, temos madeirenses em todo o lado, da mesma forma que temos portugueses em todo o lado».
Portanto, no seu entender, Portugal deve ser dos países, à semelhança de Israel, com uma diáspora mais versátil e mais diversificada. «Na verdade, é esse potencial que temos de utilizar», reforçou.
Mas, lamentou, «à boa maneira portuguesa, nós fazemos grandes planos e depois não executamos».
«E eu espero, senhor secretário de estado, que se comece a executar esse plano», disse, dirigindo-se a Emídio Sousa.
Porque, criticou, «passar da ação para a prática, por vezes, em política é muito difícil». «Sobretudo quando nós estamos atolados numa burocracia bizantina, que faz com que os políticos sejam prisioneiros da mesma», acrescentou.
A concluir, agradeceu a todos a sua presença no Fórum e reiterou ter sido um prazer estar naquela sala, aproveitando «para reiterar a todos a nossa ligação e a nossa política de ligação forte e constante com a nossa Diáspora».
O Fórum decorre sob o tema “Raízes da Identidade, Pontes para o Futuro”.