O presidente do Governo Regional explicou que fez questão de estar na apresentação da obra – num evento promovido pela Delegação da Madeira da Associação de Auditores dos Cursos de Defesa Nacional e que decorreu na Sala Bellevue do Savoy Palace – por, na televisão, o também comentador fazer diferença em relação a outros que revelam ignorância absoluta.
Um livro que, reiterou, é muito interessante e que «vem colocar na ordem do dia algumas questões, como o saber qual a estratégia de defesa e de segurança que Portugal vai adotar – e depois de amanhã há um conselho de Estado em que o
tema é exatamente esse – porque o mundo mudou subitamente de uma ordem estabelecida no pós-45».
O governante disse também ser importante recordar o discurso de Mark Carney em Davos e aludiu a Tucídides, que descreve a ordem internacional que temos hoje: os fortes fazem o que querem e os fracos sofrem aquilo que têm de sofrer.
Para o líder madeirense, os europeus não devem de ter nenhuma dúvida acerca desta nova ordem, até pela publicação em novembro de 2025 da Estratégia de Segurança aprovada pela Administração norte-americana. «Em 27 páginas diz o que é a posição dos EUA no mundo», recordou.
Face a esta situação, Miguel Albuquerque diz que, hoje em dia o que conta «e a posição, o acesso, a profundidade, a distância e zonas de influência».
Isto numa ordem mundial fragmentada: «a leste a Rússia historicamente expansionista; os EUA querem o Ártico, o Atlântico, tutelar a América do Sul, conter a China no Pacífico e projetar o seu poder e aliados no Médio Oriente. E sem pedir licença a ninguém o objetivo é conter a China e a Rússia; a China foca-se neste momento na liderança tecnológica global, especialmente em IA. E a expansão geopolítica faz-se através da nova rota da seda e que visa o fortalecimento do chamado sul global. O objetivo central e consolidar o poder e rotas no Pacífico e, um dia, tomar conta de Taiwan».
O presidente do Governo Regional diz que, durante muitos anos, a União Europeia enganou-se ao pensar que a geoeconomia podia substituir a geopolítica. E que «a virtude, a retórica e o direito internacional ia substituir a força». «Foi uma ilusão e ingenuidade que se paga caro», considera.
Miguel Albuquerque diz que a Europa só acorda para o mundo quando tem uma guerra à sua porta, no leste europeu, e está com uma tripla vulnerabilidade: a começar pela dependência absoluta do poder militar americano.
Depois, há ainda a considerar «a inexistência do mercado europeu de energia: fechou-se o nuclear e encerrou-se prematuramente as centrais de carvão e dependência energética de uma potência hostil».
«E o gás na Europa custa mais de 3 vezes do que nos EUA. Como vamos fazer uma reindustrialização, desbloquear dependências e voltar a ter crescimento económico com um mercado de energia que não funciona e com custos elevadíssimos?», questiona.
A terceira vulnerabilidade é o atraso tecnológico para a China e EUA. «Tem conhecimento e cientistas, mas a partir do momento em que uma empresa atinge os mil ME muda-se para os EUA, porque a Europa não tem mercado de financiamento e bolsas para fazer crescer estas empresas», lamentou.
O governante falou ainda da estratégia que Portugal tem para a Defesa: «Uma estratégica/política de Defesa Continental é mais cómoda, mas seremos irrelevantes porque estamos encravados entre Espanha e o Atlântico. Neste quadro Portugal será um serviçal irrelevante».
Para Miguel Albuquerque há uma segunda opção, a considerar: «Portugal, em termos geopolíticos, tem uma coisa que a maioria dos países não tem, que se chama geografia útil. Portugal é um país descontinuado, com uma dimensão Atlântica descomunal, através da sua plataforma continental. O que pode ser relevante se tomar a decisão de garantir uma estratégia de Defesa Atlântica».
«O Atlântico está a recuperar importância estratégica. Os Açores fazem fronteira com os EUA e a Madeira e Porto Santo estão a 500 km de África e as Selvagens a 300 Km de Marrocos», recordou.
Desta forma, diz ser fundamental saber qual a lógica dos investimentos que Portugal vai fazer: ou investe na sua dimensão Atlântica ou Continental. Para bem do País, frisou, é importante a opção pelo Atlântico.