A Secretária Regional de Educação, Ciência e Tecnologia, Elsa Fernandes, foi uma das intervenientes no Connect Madeira 2026, iniciativa da MEO que reuniu mais de 20 oradores em torno do tema “Inteligência, Dados e Resiliência para um futuro mais conectado”.
Neste contexto, a governante subiu a palco para abordar “O TutorIA na Educação: Preparar as Novas Gerações para um Futuro Digital Resiliente”, tendo começado por afirmar que preparar as novas gerações para um futuro digital resiliente significa muito mais do que saber trabalhar com as tecnologias.
«Significa desenvolver competências, conhecimento, atitudes e valores para que as crianças e jovens que temos na Escola possam adaptar-se à transformação tecnológica, adaptar-se às mudanças que vivem diariamente e, mais do que tudo, sejam capazes de participar de forma crítica, responsável e criativa nestas mudanças e na nossa sociedade. Para isso, é preciso educar as nossas crianças e jovens para desenvolver o pensamento crítico para a segurança e a ética na utilização destas ferramentas digitais com que lidam todos os dias, prepará-los para a adaptabilidade neste mundo que muda muito rapidamente e para que saibam aprender ao longo de toda a sua vida. Temos de pensar nesta mudança e agir na Escola relativamente a ela. Os nossos alunos têm sido educados para a literacia digital, agora é preciso educá-los também para a literacia em IA. Trabalhar o pensamento crítico é fundamental na era da Inteligência Artificial, tal como a ética, o viés, a privacidade e, claro, a criatividade e a resolução de problemas», relevou a governante.
Elsa Fernandes recuou um pouco no tempo para explicar o investimento do Governo Regional na área tecnológica na Educação. «Não é só porque queremos uma Escola cheia de tecnologias, é muito mais do que isso. Queremos uma formação integral dos nossos alunos, ou seja, queremos que eles saibam de Matemática, de Biologia, de Físico e Química, de Português, de História, etc., mas queremos que eles saiam do ensino, no final dos 12 anos em que estão connosco, com competências transversais, que saibam trabalhar em equipa, que saibam comunicar, que saibam colaborar, que saibam pensar criticamente. Isto é dar aos nossos jovens competências para uma cidadania ativa e bem-sucedida», objetivou, sublinhando que as tecnologias também apoiam o trabalho dos docentes e incentiva-os à inovação pedagógica «que é a única forma de incluir todos os alunos».
Elsa Fernandes recordou a introdução dos manuais digitais no 5.º ano e mais tarde dos chromebooks no 10.º ano para relevar que, neste momento, todas as escolas do ensino público, e algumas do ensino privado, envolvidas no projeto. O reforço da infraestrutura informática e o investimento na segurança digital e na formação de professores foram alguns aspetos conducentes ao sucesso.
«16 mil alunos 3 mil professores na Região trabalham desta forma. Isto leva a uma maior diferenciação pedagógica, uma maior preparação para este mundo em constante mudança, uma maior poupança para as famílias e tem dado resultados», notou, referindo-se aos relatórios do PISA que colocam os alunos da Madeira em primeiro lugar na resolução de problemas computacionais, programação e modelação. «Estamos à frente dos Estados Unidos, da Bélgica, da França, da Alemanha e de outros países que são referências», destacou, considerando a introdução da Inteligência Artificial no ensino, através do TutorIA, «um processo natural».
«Não podíamos perder esta oportunidade de educar os nossos alunos com esta ferramenta tão poderosa, sem esquecer que os atores principais desta transformação são os professores. A Inteligência Artificial, com certeza, vai fazer parte do dia-a-dia de todos eles.
Elsa Fernandes explicou o conceito do TutorIA. «Ninguém ensina uma criança a nadar no mar revolto. Criámos a nossa ferramenta de Inteligência Artificial precisamente para ensinar os alunos como lidar com esta ferramenta tão poderosa num ambiente um pouco mais controlado, para depois poderem nadar em mar aberto. Esta plataforma permite uma educação mais personalizada, mais inclusiva e mais resiliente», enalteceu, apontando ao papel fundamental dos professores no processo. «Terão formação contínua para que desenvolvam as competências digitais, para trabalhar de forma eficiente e eficaz, para que possam promover inovação pedagógica, colaborar uns com os outros e partilhar.
A governante recordou o processo de implementação do TutorIA, um pouco à semelhança do que sucedeu com o projeto dos Manuais Digitais, ou seja, com um projeto piloto junto de turmas do 5.º e do 10.º ano, e formação de professores. Exemplificou a sua utilização em contexto de sala de aula, com questões introduzidas pelos alunos ao TutorIA e ao ChatGPT.
Os alunos confrontaram as respostas, construíram um quadro de conceitos fundamentais, com nota de validação, um glossário de termos-chave e uma análise comparativa com a respetiva validação científica. O docente identificou alucinações, terminologia imprecisa, notação científica divergente e profundidade insuficiente para um currículo de décimo ano.
«O que é que quero destacar aqui», indicou Elsa Fernandes, é que «o erro da Inteligência Artificial deixou de ser um problema e passou a ser um objeto de aprendizagem, porque os alunos têm de refletir sobre o que estão a ver e a confrontar com diversos documentos, um deles o manual, onde sabem que as coisas estão corretas. Os alunos aprendem a não confiar em tudo que leem e a desenvolverem o espírito crítico, assumem o papel de auditores científicos e desenvolvem o rigor conceitual e científico», explicou a Secretária Regional, sublinhando que «este tipo de trabalho articula a literacia em IA, pensamento histórico e formação cívica e torna visível o viés da confirmação central para a cidadania digital».
Elsa Fernandes enfatizou que o manual foi sempre a referência da validação e que a mediação do professor foi indispensável. «Ou seja, a IA não vai substituir os professores, ao contrário do que se possa pensar», esclareceu, revelando que o TutorIA utiliza IA generativa e tem base socrática, ou seja, não dá a resposta pronta aos alunos, coloca questões e faz sugestões. Inclui a gamificação, que dá ao aluno a possibilidade de fazer a autoaprendizagem e a autoavaliação, tem as respostas imediatas e explicações de sugestões geradas pela IA.
Para os docentes, o TutorIA auxilia na avaliação das aprendizagens. «Perante uma determinada tarefa, o professor pode aperceber-se que um aluno já aprendeu tudo e pode-lhe disponibilizar tarefas num nível mais elevado; se outro ainda não aprendeu o que era para aprender, continua a trabalhar até que a aprendizagem esteja realizada. Isto é uma mais-valia para os professores», explicou Elsa Fernandes, adiantando que a plataforma permite aos professores detetar comportamentos desviantes no meio virtual, «não para punir os alunos, mas para educá-los», e ajuda-os na produção de conteúdos didáticos e na organização dos mesmos. «Temos cerca de 1 600 professores, 8 250 alunos e quase todas as escolas públicas este ano envolvidos neste projeto.»
Não obstante, a Secretária Regional considerou que nem tudo são maravilhas. «A inteligência artificial não é neutra. A maior parte dos sistemas utilizados são criados por empresas restritas, com pouca visibilidade. Onde foram buscar os dados? Como é que construíram aquilo? Temos de ter consciência que não existe neutralidade e temos de educar e discutir com os nossos alunos esta questão. É preciso que na Escola também se utilize a inteligência artificial para educar sobre a literacia crítica e cívica», apontou.
A finalizar, Elsa Fernandes definiu o objetivo para com o TutorIA. «O nosso foco não está no mais, queremos é ter uma Escola onde cada aluno encontra mais oportunidades para se desenvolver, onde cada professor dispõe de melhores instrumentos para ensinar e onde a inovação contribui efetivamente para uma Educação de maior qualidade, mais justa e mais inclusiva», concretizou.