A primeira cria de freira-da-Madeira (Pterodroma madeira) da época reprodutora de 2025 nasceu na última semana, no maciço montanhoso da ilha da Madeira, marcando mais um momento de esperança para uma das aves marinhas mais ameaçadas da Europa. A confirmação foi feita pelos Vigilantes da Natureza durante ações de monitorização no Pico do Areeiro, uma das zonas de nidificação mais sensíveis e de acesso extremamente difícil.
Endémica da Madeira e com uma população estimada entre 65 a 80 casais, a freira-da-Madeira é considerada uma das aves mais ameaçadas do mundo, encontrando-se classificada como “Em Perigo” segundo os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A espécie nidifica exclusivamente em pequenas plataformas naturais acima dos 1600 metros de altitude, entre o Pico do Areeiro e o Pico Ruivo, locais conhecidos localmente como “mangas”.
Cada casal de freiras-da-Madeira coloca apenas um ovo por ano, tornando cada nascimento um acontecimento valioso. Para garantir o sucesso reprodutor, os progenitores enfrentam um ciclo longo e exigente: desde o regresso à terra, a preparação do ninho, a incubação do ovo e, por fim, o cuidado com a cria até que esta se torne autónoma e parta para o mar, o que ocorre habitualmente até meados de outubro.
Vigilância reforçada e tecnologia de ponta
O acompanhamento da espécie é feito pelo Instituto de Florestas e Conservação da Natureza (IFCN), no âmbito do projeto LIFE FREIRAS, em curso desde os anos 1990, e que reúne biólogos, vigilantes da natureza e técnicos especializados. A vigilância das zonas de nidificação tem vindo a ser intensificada, através de um projeto que recorre a um sistema inovador de monitorização automatizada com câmaras e inteligência artificial, que permite a triagem de milhares de imagens e a deteção precoce de predadores, contribuindo para uma resposta mais rápida e eficaz.
O Instituto de Florestas e Conservação da Madeira congratula-se com este novo nascimento e com o caminho trilhado pela política de conservação da Madeira: “Este nascimento é uma conquista de toda a sociedade madeirense. É o reflexo de uma política de conservação responsável, com base científica, integrada, e, acima de tudo, persistente. A nossa aposta na conservação da natureza está a dar resultados concretos: conseguimos melhorar o estatuto de conservação da freira-da-Madeira e dar nova esperança a uma espécie que esteve à beira da extinção.”
O IFCN sublinha ainda que a proteção da biodiversidade é uma prioridade para a Região Autónoma da Madeira: “Estamos a preservar o património natural, mas também a projetar o futuro. A freira-da-Madeira é hoje um símbolo do que podemos alcançar com compromisso, cooperação científica e ação no terreno. A nossa política de conservação é uma das mais robustas do país e continuará a merecer todo o investimento necessário.”
De “Criticamente em Perigo” a “Em Perigo”: uma história de recuperação
Os resultados do trabalho continuado de conservação são evidentes. Em 2003, a descoberta de uma nova colónia com cerca de 25 ninhos ativos quase duplicou a população então estimada, que rondava apenas os 30 a 40 casais reprodutores. Desde então, a tendência tem sido de crescimento e estabilização da espécie, com a estimativa atual a apontar para 80 casais.
Este sucesso permitiu uma mudança significativa no estatuto de ameaça da ave no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, passando de Criticamente em Perigo para Em Perigo, um feito raro entre espécies marinhas ameaçadas.
Uma ave extraordinária e misteriosa
A freira-da-Madeira é uma ave discreta e noturna, que passa a maior parte do seu ciclo de vida no mar alto, regressando à terra apenas para nidificar. Com cerca de 32 cm de comprimento e 80 cm de envergadura, apresenta plumagem escura nas asas e dorso, cauda cinzenta e ventre esbranquiçado.
O projeto OCEANTREE, em curso desde 2018, tem vindo a revelar detalhes surpreendentes sobre a ecologia marinha desta espécie. Através da colocação de nano-GPS de apenas 3 gramas, foi possível mapear as áreas de alimentação em pleno Atlântico Norte. Estudos recentes demonstram que estas pequenas aves chegam a percorrer milhares de quilómetros durante a época reprodutiva, com deslocações até à zona dos Grandes Bancos do Canadá, num comportamento migratório considerado notável para uma espécie de tão pequeno porte.
“Estas aves são verdadeiras embaixadoras da resistência da natureza. O que conseguimos com a freira-da-Madeira deve servir de exemplo para outras áreas da conservação da biodiversidade,” reforçou Paulo Oliveira, vogal do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza (IFCN).
Um esforço coletivo e multidisciplinar
Paulo Oliveira explica que “a conservação da freira-da-Madeira exige uma abordagem integrada: além da vigilância dos ninhos, são implementadas medidas de controlo de espécies invasoras e predadores, fiscalização das atividades humanas, gestão do coberto vegetal e intervenções discretas e criteriosas nas áreas de nidificação. O esforço diário de equipas altamente especializadas é essencial para garantir que cada ovo depositado tem a máxima probabilidade de gerar uma nova vida”.
O IFCN tem desempenhado um papel central nesta missão, em articulação com investigadores, organizações não-governamentais, universidades e entidades locais, numa lógica de conservação baseada na ciência e na colaboração institucional.