A Secretária Regional de Educação, Ciência e Tecnologia, Elsa Fernandes, esteve presente, esta quarta-feira, na abertura da exposição “Na pena de Reis Gomes, a Ilha em Festa”, no Centro de Estudos de História do Atlântico – Alberto Vieira (CEHA-AV).
Trata-se de uma mostra dedicada à obra do escritor madeirense João dos Reis Gomes, que propõe uma abordagem inovadora à literatura, colocando a escuta no centro da experiência estética e cultural.
Desenvolvida pela Secretaria Regional de Educação, Ciência e Tecnologia, através do Conservatório – Escola das Artes da Madeira, Eng.º Luiz Peter Clode, em parceria com a Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura, através do Centro de Estudos de História do Atlântico – Alberto Vieira (CEHA-AV), da Direção Regional dos Arquivos, das Bibliotecas e do Livro, a exposição convida o público a descobrir de que forma o som, nas suas múltiplas manifestações, estrutura a narrativa e revela dimensões profundas da experiência humana.
Assente numa perspetiva interdisciplinar que cruza literatura e música, a mostra evidencia como os textos literários podem ser entendidos como paisagens sonoras, desafiando o visitante a escutar a musicalidade, os ritmos e os ambientes acústicos que constroem significado, identidade e memória cultural.
Com especial enfoque nos contos «A Romaria do Monte» e «S. João da Ribeira», integrados na obra De Bom Humor, a exposição destaca a capacidade de João dos Reis Gomes para recriar, através da linguagem, a vivência das festas populares madeirenses. Entre cantares ao desafio, filarmónicas, foguetes e vozes coletivas, o som surge como elemento central de integração social, emoção e ritual.
Para conferir textura e profundidade à exposição, patente até ao próximo dia 30 de junho, entre outras valências, como um mapa que identifica as festas religiosas já celebradas na altura de vida de João dos Reis Gomes, foi integrado um conjunto de peças históricas e etnográficas, entre as quais se destacam uma farda antiga da Banda Municipal do Funchal, um traje típico do folclore madeirense, instrumentos musicais de época e partituras antigas, que estabelecem uma “ponte” direta entre a literatura e o património musical e performativo da Madeira, reforçando a dimensão sonora que atravessa toda a exposição.
Sobre João dos Reis Gomes
João dos Reis Gomes nasceu no Funchal, na freguesia de São Pedro, a 5 de janeiro de 1869, filho de João Gomes Bento e Maria Gertrudes de Castro Gomes Bento. Foi casado com Maria Dulce da Câmara de Meneses Alves, com quem teve um filho. Faleceu na sua residência, na Quinta do Esmeraldo, em São Martinho, a 21 de janeiro de 1950. Ingressou no Regimento de Caçadores 12 com 17 anos, como voluntário. Em 1887, mudou‑se para Lisboa para frequentar a Escola Politécnica, onde iniciou o curso de oficial de Artilharia, transitando posteriormente para a Escola do Exército. Durante a sua formação, distinguiu‑se com as mais altas classificações, concluindo o curso da Arma de Artilharia e obtendo o diploma de engenheiro industrial.
A sua vida profissional dividiu‑se entre o exército e a docência. Permaneceu no quadro militar entre 1892 e 1917, ano em que passou à reserva. Paralelamente, iniciou a carreira no ensino em 1900, como professor provisório no Liceu do Funchal, onde lecionou Ciências. Em 1913, começou a lecionar na Escola Industrial e Comercial do Funchal, instituição que dirigiu entre 1929 e 1939.
Além das carreiras militar e pedagógica, destacou‑se como escritor e ensaísta, com particular interesse pela estética musical e teatral. Em 1913, levou à cena, no Teatro Municipal do Funchal, a peça Guiomar Teixeira, considerada pioneira na introdução do cinema como elemento cénico. No campo da filosofia das artes, publicou em 1919 o ensaio A Música e o Teatro, onde defendeu uma visão moderna e científica da música, rejeitando o elitismo artístico e defendendo a democratização da arte. A sua vasta produção literária inclui títulos como O Teatro e o Actor (1905), Histórias Simples (1907), A Filha de Tristão das Damas (1909), Acústica Fisiológica (1922), Forças Psíquicas (1925), O Belo Natural e Artístico (1928), O Anel do Imperador (Napoleão e a Madeira) (1934) e Casas Madeirenses (1937). Colaborou com periódicos de renome e dirigiu os jornais Heraldo da Madeira e Diário da Madeira. A Direção Regional dos Arquivos, das Bibliotecas e do Livro editou, em 2023 e 2024, a coleção digital Obra Completa de J. Reis Gomes, composta por 20 volumes.