O II Colóquio de Literatura Madeirense, evento promovido pela Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura, através da Direção Regional dos Arquivos, das Bibliotecas e do Livro, a Universidade da Madeira e a Câmara do Funchal, arrancou na manhã desta quinta-feira com um apelo claro à construção de uma política estruturada para o setor do livro e da leitura na Região Autónoma da Madeira. Na sessão de abertura, o Secretário Regional, Eduardo Jesus, sublinhou o caráter estratégico do encontro, defendendo que o mesmo deve traduzir-se em resultados concretos para o futuro cultural da região.
“Queremos assumidamente que este encontro contribua de forma objetiva e definitiva para lançar as bases de uma futura estratégia para o livro e leitura na Região Autónoma da Madeira”, afirmou, perante uma plateia composta por investigadores, docentes, escritores e agentes culturais.
Mais do que um evento académico, o governante destacou o colóquio como um espaço de afirmação da literatura madeirense enquanto objeto de estudo, património cultural e expressão da identidade coletiva. Nesse sentido, defendeu a necessidade de consolidar o conhecimento existente, estimular a investigação e reforçar a presença da produção literária insular nos circuitos científicos e culturais, tanto a nível regional como nacional e internacional.
A continuidade da iniciativa, agora na sua segunda edição, foi apontada como um sinal de maturidade e visão estratégica. Eduardo Jesus salientou que “a persistência e o planeamento” são fundamentais para garantir impacto duradouro, lembrando que, embora ações isoladas possam gerar mudanças, é a consistência que permite consolidá-las.
O governante aproveitou ainda para valorizar o trabalho desenvolvido pela Direção Regional dos Arquivos, das Bibliotecas e do Livro, liderada por Nuno Mota, destacando o investimento público na criação de condições para o acesso à cultura, ao conhecimento e à leitura. Nesse contexto, reforçou o papel central dos arquivos e bibliotecas não apenas como espaços de preservação, mas também como instrumentos ativos de divulgação e aproximação da população à sua própria memória coletiva.
Outro dos pontos destacados foi o reforço das parcerias institucionais, nomeadamente com a Universidade da Madeira, que se junta à Câmara Municipal do Funchal na organização desta edição. Esta articulação, segundo o governante, permite elevar a qualidade científica do colóquio, promovendo uma maior ligação entre investigação académica, ensino e definição de políticas culturais.
O programa do encontro reflete essa diversidade de abordagens, propondo revisitar diferentes momentos e dinâmicas do sistema literário madeirense. Entre os temas em análise, recordou o governante, estão o romantismo, a redescoberta de autores e obras, o impacto do período pós-25 de Abril — com destaque para projetos como o “Ilha” —, bem como as questões da insularidade e os diálogos com outras literaturas insulares e a celebração dos 200 anos de Camilo Castelo Branco.
No que se refere ao projeto “Ilha”, impulsionado por José António Gonçalves e apontado como uma referência importante no panorama cultural madeirense, referiu que este surgiu como um marco na dinamização e afirmação da produção literária regional, promovendo novas vozes e incentivando a reflexão sobre a identidade insular. Ao revisitar esta iniciativa, o colóquio procura, assim, não só valorizar o seu legado histórico e cultural, mas também compreender o seu impacto na construção de uma consciência literária própria, contribuindo para o debate atual sobre o papel da literatura na afirmação da Madeira no contexto mais amplo das literaturas de expressão portuguesa.
A relação entre literatura, memória, identidade e território assume também um papel central, numa reflexão que cruza o passado e o presente da Madeira. Eduardo Jesus enfatizou que os arquivos regionais são fundamentais neste processo, não apenas por preservarem o património documental, mas por o colocarem ao serviço da investigação e do aprofundamento da identidade cultural.
O colóquio decorre ao longo de três dias e pretende afirmar-se como um espaço de reflexão, partilha e construção de conhecimento, reunindo contributos de especialistas de diferentes geografias. Para o governante, este é também um momento oportuno para aprender com experiências externas e integrar boas práticas na realidade regional.
A sessão de abertura ficou ainda marcada por palavras de reconhecimento à comissão organizadora, representada por Natércia Gouveia, destacando o empenho e a dedicação na concretização do evento.
No final, Eduardo Jesus deixou o desejo de que o encontro contribua para um debate produtivo e inspirador, capaz de gerar orientações concretas para o futuro do setor, e manifestou a expectativa de que o colóquio tenha continuidade, já com uma terceira edição em perspetiva.