Opinião

Opinião A Cigarra e a Formiga…

É com muito gosto e satisfação que me dirijo pela primeira vez no papel de escriba aos caros leitores do JM, esperando não os desapontar. Como homem das engenharias, estou sempre mais à vontade com os números do que com as letras, a menos que estas estejam numa folha de cálculo… vamos ver como corre. 
Vou neste espaço tentar transmitir a minha visão e perspetivas sobre a atualidade e a factualidade regionais. Neste contexto, gostava de começar por fazer uma comparação da realidade cá do burgo com uma história bem conhecida de todos e que envolve duas personagens muito singulares: uma cigarra e uma formiga. 
Toda a gente miúda e graúda conhece e reconhece esta interessante fábula de La Fontaine, mas tenho para mim que a moral da mesma, que apela ao trabalho, à seriedade e à responsabilidade perdeu importância e desvaneceu-se do código genético de uma parte da nossa sociedade e de algumas franjas do tecido político regional. 
De facto, com o Inverno ao longe é mais fácil e glamoroso ser a cigarra. E destes insetos é o que não falta por aí… encontramo-los em quantidades abundantes, sobretudo associados a uma novel e andrógena esquerda, que se pavoneia sem pudor por certa comunicação social, a tocar e a cantar (leia-se a anunciar e a autopromover-se). 
Estas cigarras são astutas e espertas (para inteligentes, o caminho ainda é longo), algumas vêm do Norte, com sacos de lapas, outras mais urbanas apresentam carapaças lustrosas e reluzentes, algumas usam óculos, outras mais finas e com a “Costa” larga, mandam notícias (leia-se bitaites) do Continente… 
Este grupo de cigarras domina o aparelho estridulatório como ninguém, cantam, dançam e prometem mundos e fundos a tudo e a todos…mas para trabalhar, para pensar, para cuidar, para fazer…ai é que a porca torce o rabo. A vacuidade do pensamento e do discurso desta gente envergonharia qualquer presidente de uma associação de estudantes do secundário…mas é o que temos e infelizmente retemos.
Por outro lado, temos a formiga, trabalhadora, séria, previdente, responsável e incansável. Tenho para mim que, felizmente, o povo madeirense identifica-se claramente com o esforçado inseto, a formiga, e de certa forma desconfia de quem se assemelha ou se aparenta com a trauliteira e folgada cigarra. Penso também que alguns foram enganados, mas esse erro também muitos já reconheceram. 
A Madeira não se ergueu com homens e mulheres com o espirito da cigarra, mas sim com o caracter e a fibra da formiga e disso eu tenho a certeza. Para os mais esquecidos deixo para reflexão a versão de Bocage da fábula de La Fontaine: 
 
Tendo a cigarra em cantigas
Passado todo o verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brilho,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.
- "Amiga", diz a cigarra,
- "Prometo, à fé d'animal,
Pagar-vos antes d'agosto
Os juros e o principal."

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
- "No verão em que lidavas?"
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: - "Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora."
- "Oh! bravo!", torna a formiga.
- "Cantavas? Pois dança agora”

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