Pesquisar

José Manuel Rodrigues quer empresas preparadas para decidir na era da inteligência artificial

Secretário Regional da Economia defende que a prioridade não deve ser levar tecnologia às empresas, mas criar condições para que saibam decidir onde a utilizar. ARIA-Empresas estabelece como meta elevar para pelo menos 25% a utilização de IA pelas PME da Região e estima ganhos de produtividade entre 15% e 20%. 17-09-2026 Economia
José Manuel Rodrigues quer empresas preparadas para decidir na era da inteligência artificial

O Secretário Regional de Economia, José Manuel Rodrigues, defendeu, esta quinta-feira, no auditório da Reitoria da Universidade da Madeira, que a Região deve preparar as suas empresas para uma transformação tecnológica que já está em curso, mas sem confundir a adoção de inteligência artificial com a simples aquisição de novas ferramentas. Na sessão de encerramento da apresentação pública da ARIA-Empresas, o governante apontou como meta elevar para pelo menos 25%, até 2030, a percentagem de PME madeirenses que utilizam inteligência artificial, com ganhos de produtividade estimados entre 15% e 20%.

“Não se trata de trazer a inteligência artificial à Madeira — porque ela já cá está, como está em todo o lado. Trata-se de trazer à Madeira mais capacidade para decidir o que fazer com ela”, afirmou José Manuel Rodrigues, no Auditório da Reitoria da Universidade da Madeira.

A diferença, sublinhou, é central para a política económica regional. A ARIA-Empresas, componente empresarial da Agenda Regional de Inteligência Artificial, deve partir menos da tecnologia disponível do que dos problemas concretos que cada empresa procura resolver.

“Uma empresa não ganha competitividade por possuir inteligência artificial; ganha-a se produzir melhor, responder mais depressa, reduzir o desperdício, conhecer melhor os seus clientes, libertar os seus trabalhadores de tarefas que pouco acrescentam, decidir com mais informação do que dispunha antes”, sustentou.

 

Pequenas empresas perante uma transformação sem precedentes

José Manuel Rodrigues chamou particular atenção para a realidade empresarial da Região, onde as microempresas representam 86% do tecido empresarial. A diferença de recursos entre uma pequena empresa e uma grande organização pode tornar-se especialmente relevante perante uma tecnologia cuja utilização, embora acessível, exige conhecimento para ser integrada de forma adequada.

“Há uma distância entre ter acesso a uma ferramenta e saber o que fazer com ela — e é precisamente essa distância que se pode tornar decisiva”, afirmou.

O Secretário Regional citou dados segundo os quais apenas 9,4% das pequenas empresas portuguesas utilizam atualmente inteligência artificial, face a 17% na média europeia. Para a Madeira, defendeu, reduzir esta diferença é uma questão de competitividade, mas também de equilíbrio do próprio tecido empresarial.

A ARIA-Empresas procura responder a esse problema através de um percurso assente na identificação do problema, avaliação da capacidade da empresa, teste de uma solução e análise dos resultados antes de uma decisão de investimento. Uma abordagem que José Manuel Rodrigues associou a uma ideia que atravessou a sua intervenção: critério.

“Temos hoje tecnologia em abundância; o que importa cultivar é a visão”, afirmou, defendendo que a inovação exige tanto capacidade para experimentar como discernimento para interromper soluções que não acrescentem valor.

 

Responsabilidade não pode ser transferida para a máquina

A utilização crescente de inteligência artificial coloca também novas exigências às empresas em matéria de dados, segurança e responsabilidade. José Manuel Rodrigues rejeitou a ideia de que uma decisão tomada com recurso a sistemas de IA possa deixar de ter um responsável identificável.

“A máquina sugere, calcula, cruza informação, escreve, identifica padrões, executa tarefas. Mas a responsabilidade continua a ter um rosto — e tem um nome: o de quem decide”, afirmou.

Neste domínio, enquadrou o Regulamento Europeu da Inteligência Artificial e o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados, sublinhando que o conhecimento das regras deve ser acompanhado pela criação, dentro das empresas, de uma cultura de responsabilidade perante a tecnologia.

É nesse contexto que enquadrou o Selo Empresa IA Responsável Madeira, apresentado como um instrumento destinado a tornar visível essa exigência, sem substituir as obrigações legais que já recaem sobre as empresas.

O governante acrescentou à discussão uma outra dimensão: os custos materiais associados à inteligência artificial. Energia, água, equipamento, centros de dados e matérias-primas fazem parte da equação e, por isso, a sustentabilidade deve ser considerada como uma componente da própria competitividade empresarial.

 

Tecnologia pode reduzir o peso económico da insularidade

Na intervenção, José Manuel Rodrigues relacionou a inteligência artificial com uma questão estrutural da economia madeirense: a insularidade.

Sem negar as limitações decorrentes da distância e da dimensão do mercado regional, o Secretário Regional considerou que a tecnologia pode alterar o peso económico da periferia, permitindo a uma pequena empresa situada numa ilha aceder a conhecimento, automatizar tarefas e prestar serviços que anteriormente exigiriam recursos muito superiores.

“Durante séculos, a dificuldade das regiões periféricas foi a distância. A tecnologia não a elimina; pode alterar profundamente aquilo que ela significa”, notou.

Para o governante, a Madeira não deve procurar reproduzir a concentração tecnológica existente nos grandes mercados, mas assegurar que as empresas regionais, independentemente da sua dimensão, dispõem de condições para acompanhar uma transformação que considera determinante para a economia europeia e mundial.

A meta definida pela ARIA-Empresas para 2030 é acompanhada pelos instrumentos financeiros disponíveis na Região, entre os quais a Linha IA PME. José Manuel Rodrigues destacou ainda a Linha Reindustrializar, integrada num pacote com uma dotação global de 51,4 milhões de euros no âmbito do Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade, criado na sequência da revisão do Plano de Recuperação e Resiliência.

 

Madeira quer participar na discussão, não apenas acompanhá-la

O Secretário Regional evocou também a realização, duas semanas antes, da 25.ª Conferência Portuguesa de Inteligência Artificial, que teve lugar no mesmo espaço, para sublinhar a posição que a Região pretende assumir neste domínio.

“A Madeira não foi espectadora dessa conversa nacional: foi anfitriã», afirmou José Manuel Rodrigues, defendendo que a Região deve consolidar uma posição de participação activa na transformação tecnológica, em vez de a acompanhar à distância.

A sessão de apresentação pública da ARIA-Empresas reuniu no Auditório da Reitoria da Universidade da Madeira responsáveis da Administração Pública Regional e representantes do tecido empresarial. A iniciativa está integrada na Agenda Regional de Inteligência Artificial e dirige-se especificamente ao universo empresarial, procurando criar condições para uma adoção mais informada, responsável e orientada para resultados.

Na parte final da intervenção, José Manuel Rodrigues colocou as pessoas no centro da transformação tecnológica: empresários capazes de compreender as novas ferramentas, trabalhadores com oportunidades de aprendizagem e dirigentes preparados para avaliar não apenas o custo de uma solução, mas também a sua finalidade, os riscos associados e o valor que pode acrescentar.

É nessa capacidade de decisão que o governante situou o propósito da ARIA-Empresas: mais do que acelerar a utilização de inteligência artificial pelas empresas madeirenses, aumentar a sua capacidade para determinar quando, onde e para quê essa tecnologia deve ser utilizada.


Este sítio utiliza cookies para facilitar a navegação e obter estatísticas de utilização. Poderá consultar a nossa Política de Privacidade aqui.