A resistência aos antimicrobianos (RAM) é amplamente reconhecida como uma das maiores ameaças globais à saúde pública, que afeta diretamente a saúde humana, animal e ambiental, e coloca em risco os avanços médicos alcançados ao longo de décadas. Este fenómeno ocorre quando bactérias, vírus, fungos e parasitas deixam de responder aos antimicrobianos, o que torna as infeções outrora tratáveis em doenças de difícil ou impossível resolução. Atualmente, a resistência aos antimicrobianos é responsável por cerca de 5 milhões de mortes anuais em todo o mundo, e projeções indicam que este número poderá ultrapassar os 10 milhões de mortes evitáveis anuais até 2030, com elevadas perdas económicas globais, se medidas eficazes não forem implementadas para conter o seu avanço (Direção-Geral da Saúde, Veterinária, & Ambiente, 2019).
A evolução deste problema está estritamente associada ao uso excessivo e inadequado de antimicrobianos, entre 2000 e 2010, o consumo global de antibióticos em medicina humana aumentou cerca de 40%, frequentemente sem diagnóstico clínico adequado ou prescrição médica, o que agravou a pressão seletiva e favoreceu o aparecimento de bactérias multirresistentes. Todos os anos, na União Europeia (UE), a Islândia e a Noruega, mais de 35 000 pessoas morrem de infeções com bactérias que são resistentes aos antimicrobianos, um número que tem vindo a aumentar nos últimos anos. O impacto destas infeções na saúde pública é comparável ao da gripe, tuberculose e VIH/SIDA combinados, evidenciando a gravidade do problema (ECDC).
Neste contexto, o Dia Europeu do Antibiótico, celebrado a 18 de novembro, e a Semana Mundial de Consciencialização sobre as Resistências aos Antimicrobianos, promovida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de 18 a 24 de novembro, surgem como iniciativas fundamentais para reforçar a sensibilização e promover ações coordenadas em escalas global, europeia e nacional. Estas campanhas alinham-se à abordagem da Comissão Europeia "Uma Só Saúde", que sublinha a interdependência entre os setores da saúde humana, animal e ambiental, promovendo a cooperação internacional para prevenir e conter esta ameaça global (WHO, 2024).
A mensagem central do Dia Europeu do Antibiótico 2024 destaca que a resistência antimicrobiana é uma ameaça invisível, mas com consequências reais e tangíveis para a saúde pública. A campanha sublinha a importância do uso responsável de antibióticos para preservar a sua eficácia e prevenir o aumento das resistências. Este apelo estende-se a profissionais de saúde, que devem prescrever antibióticos com critério rigoroso, e à população em geral, que deve evitar a automedicação e cumprir estritamente as orientações médicas (CE, 2024) (WHO, 2024). Esta iniciativa promove ações educativas e de sensibilização, como seminários, kits informativos e campanhas dirigidas a grupos específicos, como adolescentes e jornalistas, para garantir uma disseminação precisa e impactante da mensagem sobre o uso prudente de antimicrobianos (CE, 2024).
Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde, em parceria com o Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e Resistências aos Antimicrobianos (PPCIRA), tem liderado estas iniciativas assim como a Semana Mundial de Consciencialização sobre as Resistências aos Antimicrobianos. A campanha deste ano, sob o lema "Educar. Defender. Agir.", ganha especial relevância após dois encontros globais de alto nível sobre RAM: o Encontro Ministerial Global sobre RAM e a Reunião de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU sobre RAM, que visam compromissos políticos concretos, metas globais acordadas e maior responsabilização na luta contra esta ameaça global (WHO, 2024).
A Semana Mundial destaca a necessidade de educar e mobilizar todos os setores envolvidos, desde profissionais de saúde e agricultores até decisores políticos e a população em geral, na implementação de medidas concretas. Estas incluem a integração da RAM em políticas públicas, como currículos escolares e de formação profissional, o reforço de sistemas de vigilância para monitorizar o uso de antimicrobianos e padrões de resistência, e a adoção de práticas preventivas, como vacinação e boas práticas na agricultura e saúde animal, para reduzir a necessidade de antimicrobianos e mitigar os seus impactos ambientais (CE, 2024).
A nível regional, a Região Autónoma da Madeira tem desenvolvido campanhas educativas, workshops e a distribuição de materiais informativos para sensibilizar prescritores e outros profissionais de saúde, como farmacêuticos e enfermeiros, enquanto capacita a população para adotar comportamentos responsáveis, como evitar a automedicação e aderir rigorosamente às prescrições médicas. Estas ações, alinhadas às diretrizes globais, são essenciais para transformar cada indivíduo num agente de mudança na luta contra a RAM (WHO, 2024).
Além disso, o investimento na formação das futuras gerações de profissionais de saúde é indispensável. A Ferramenta de Avaliação Curricular sobre Resistência Antimicrobiana na Educação Médica, desenvolvida pela OMS, é um recurso essencial para fortalecer currículos e integrar competências fundamentais sobre RAM. Esta abordagem transversal, que liga áreas como microbiologia, farmacologia e saúde pública, prepara os prescritores para enfrentar os desafios da RAM de forma eficaz e responsável, contribuindo para criar uma força de trabalho capacitada para mitigar esta ameaça invisível (WHO, 2024).
Estas ações locais e globais não só fortalecem a saúde pública, mas também asseguram que os antimicrobianos continuem eficazes e seguros para as gerações futuras. A mobilização conjunta de profissionais de saúde, doentes, famílias e comunidades é essencial para enfrentar este desafio global de forma eficaz e sustentável, garantindo um futuro mais seguro e saudável para todos.