O Museu Quinta das Cruzes vai sofrer obras de recuperação, no valor de cerca 1,056 milhões de euros. A intervenção, que inclui medidas para dotar o edifício histórico de condições para resistir às alterações climáticas a longo prazo, será financiada em 85% - 898 mil euros - pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), sendo o restante da responsabilidade da Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura.
O projeto, que deverá ir para o terreno em 2026, compreende a recuperação das coberturas intervencionadas pela última vez nos anos 70 de 1900, a impermeabilização pontual de paredes e a remodelação da iluminação e dos sistemas de ventilação. Um dos problemas mais graves dos edifícios é a entrada de águas no seu interior, pois habitualmente provoca danos nas estruturas, nos elementos decorativos, nas obras de arte e afeta a qualidade do ambiente.
As telhas e as caleiras das coberturas dos edifícios do museu têm permitido a entrada de águas e humidades no interior, pois já perderam a sua capacidade de impermeabilização e apresentam fendas deslocamentos e outras patologias.
Nos últimos dois anos foi identificado um novo problema no edifício principal, que também está relacionado com a entrada de águas, mas desta vez, pelas paredes/fundações viradas a norte que têm estado mais permeáveis a presença de águas por capilaridade, danificando a tijoleira artesanal do interior e obrigando ao encerramento de algumas salas de exposição.
Assim, pretende-se proceder à execução de um dreno com impermeabilização das fundações, junto às paredes mais problemáticas, e a instalação de um novo equipamento que irá controlar a humidade por capilaridade através da inversão do campo magnético.
Pretende-se também a atualização do sistema de iluminação existente no Museu Quinta das Cruzes, de modo a proporcionar melhores condições de iluminação e preservação das peças e a redução do consumo energético, utilizando equipamentos de elevada eficácia energética, de maior vida útil e que garantam a fidelidade em termos de reprodução cromática e de temperatura de cor.
Propõe-se ainda efetuar a substituição de sistemas de ar condicionado R22 e R410A por sistemas R32 pode trazer benefícios significativos, como a redução do potencial de aquecimento global (GWP), já que o R32 tem um GWP significativamente menor que os refrigerantes antigos. Além disso, o R32 é mais eficiente em termos energéticos, o que resulta em economia de energia e menor impacto ambiental. Assim, os principais benefícios da substituição do sistema de climatização são a maior eficiência energética, a redução de custos, um menor impacto ambiental e da pegada carbónica.
A Quinta das Cruzes situa-se numa zona privilegiada da Cidade do Funchal, à Calçada do Pico, abaixo da Fortaleza de São João Baptista, datada do século XVII e paredes meias com o Convento de Santa Clara. Trata-se de uma verdadeira Quinta Madeirense, constituída por Casa de Moradia, Capela e Parque Ajardinado e que se estende por uma área total de 10.000 m2.
A Quinta das Cruzes é a memória viva de um passado cada vez mais distante, por ser tão ou mais antiga que a própria criação da Cidade do Funchal. A primitiva casa foi construída para servir de residência a João Gonçalves Zarco, 1º Capitão do Donatário (1425-1467?) e sua família. Essa modesta casa de moradia foi, posteriormente, ampliada e engrandecida pelo seu filho que parece ter aproveitado os mestres que trabalhavam na construção da antiga igreja do Convento de Santa Clara.
As primeiras referências às «Casas das Cruzes» datam do século XVI, designação que perdurou no tempo e que, provavelmente, se relaciona com a realização, neste local, de festas religiosas de tradição minhota.
Esta Quinta, pela sua longa existência, foi sofrendo numerosas alterações, na adaptação constante dos seus espaços a utilizações e vivências diferenciadas, tornando-a atualmente um vasto complexo de estruturas e elementos arquitetónicos, de várias épocas.
A Quinta é hoje uma realidade diferente, feita de outros personagens, de outras hierarquias, de outras condicionantes culturais e sociais. Por circunstâncias da sua história, dela se fez um Museu – um Museu de Artes Decorativas.
A 19 de dezembro de 1946, César Filipe Gomes, ourives de profissão e colecionador, numa espontânea e feliz iniciativa, doa a sua coleção à Região, entregue ao cuidado da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, que se responsabiliza pela criação do museu a instalar na Quinta das Cruzes, conforme condição e vontade expressa pelo próprio doador. Assim nasce o primeiro Museu de Arte na Ilha da Madeira.
O processo de aquisição desta Quinta decorre entre o final de 1946 e 1948. A primeira medida de salvaguarda tomada nesse sentido é a sua classificação como Imóvel de Interesse Público (Dec. N.º 36.383, de 28 de julho de 1947).A 28 de maio de 1953, abre-se oficialmente o Museu Quinta das Cruzes (inicialmente também conhecido por Museu César Gomes em homenagem ao seu fundador).
Atualmente, o Museu Quinta das Cruzes é um organismo público, dependente da Administração Regional, tutelado pela Secretaria Regional de Turismo, Ambiente e Cultura / Direção Regional da Cultura. Integra a Rede Portuguesa de Museus (RPM) desde 2002.
Investimento fundamental no património
O Secretário Regional de Turismo, Ambiente e Cultura, Eduardo Jesus, sublinha que estas intervenções “representam um investimento estratégico na salvaguarda e valorização do património cultural da Região”, destacando que o financiamento de verbas europeias, ao abrigo do FEDER, “é fundamental para garantir a requalificação de edifícios históricos emblemáticos, assegurando a sua preservação para as gerações futuras”.
O governante realça ainda que as obras no Museu Quinta das Cruzes “vão muito além de uma simples reabilitação física, incorporando soluções técnicas que aumentam a eficiência energética, reduzem a pegada ambiental e criam melhores condições para a conservação das coleções e para a fruição do público”.
Eduardo Jesus recorda ainda que, recentemente, foram aprovadas várias candidaturas no âmbito da valorização do património cultural religioso da Região, nomeadamente para a conservação e restauro do património azulejar de seis igrejas dos concelhos do Funchal e de Machico. O projeto, candidatado ao Programa Regional da Madeira 2021-2027, no âmbito do FEDER, obteve luz verde para um investimento global de 2,48 milhões de euros, com uma comparticipação comunitária de 1,95 milhões de euros.
Destaca igualmente a recente aprovação de uma outra candidatura para a conservação e restauro das capelas da Igreja de São João Evangelista, no Funchal, no valor de cerca de 2,65 milhões de euros, também financiada em 85% pelo FEDER, cujo procedimento será lançado em 2026. “Esta intervenção permitirá salvaguardar um vasto e valioso conjunto de património móvel, desde a talha dourada e policromada às pinturas, esculturas, têxteis e revestimentos, assegurando condições adequadas de conservação e uma atualização do sistema de iluminação, com ganhos ao nível da eficiência energética e da valorização do conjunto patrimonial”, conclui.
Segundo o Secretário Regional, estes projetos “demonstram a boa articulação entre fundos europeus e investimento regional, colocando a cultura no centro das políticas de desenvolvimento sustentável e de valorização da identidade madeirense”.