Miguel Albuquerque falava na sessão de abertura da quarta edição das Conferências do Atlântico, que têm como tema “Winston Churchill, a Democracia Liberal e a Aliança Euro-Atlântica e decorrem, hoje, no Museu da Imprensa, em Câmara de Lobos, resultado de uma parceria entre a Câmara Municipal de Câmara de Lobos e o Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa. A edição deste ano contou com a participação de Jeremy Black, Professor Emérito de História da Universidade de Exeter, entre outros ilustres oradores, entre os quais o antigo primeiro-ministro português e presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.
Aos presentes no evento (que é para ser internacionalizado, como defendeu junto da organização, dando mais um passo que corresponde à qualidade e afirmação das Conferências), defendeu o que já antes defendera, à sua chegada ao local, em
declarações aos jornalistas: que face às mudanças em curso na Orem mundial, há que assumir uma nova estratégia, por parte da Europa e por parte de Portugal.
«A Ordem que nós herdamos de 1945 está a desvanecer-se, ou seja, acabou. Aquela conceção herdada da Guerra Fria, onde o poder americano e a projeção do poder americano garantia a segurança à Europa, teve agora o seu términus, com o documento que foi dado a conhecer, em novembro do ano passado, sobre a nova estratégia da Administração norte-americana», lembrou.
O que faz, relevou, que a Europa tenha agora de fazer «um reforço da sua capacidade dissuasora, ou seja, tem de investir na reindustrialização militar, para garantir um poder efetivo e não apenas um poder retórico».
Algo que assumiu ser difícil num contexto em que os países motores da economia europeia (Alemanha, França e Reino Unido) estão a passar por momentos difíceis em termos económicos e políticos. Mas, que apesar da conjuntura, é um esforço que terá de ser feito. E, salientou, «tem de ser feito pondo em causa alguma afetação de recursos para outras áreas onde a Europa é pródiga». O que obrigará a «repensar sobremaneira alguns investimentos europeus em algumas áreas, para se poder fazer o reforço militar».
Face a este cenário, Portugal, como potência média, terá de, advogou, «fazer uma opção». E essa opção será: «ou é continental ou é atlântica!».
Porque conforme explicou, estamos «a viver num mundo que voltou àquilo que sempre foi: as grandes potências fazem o que querem e os países mais pequenos têm de adotar uma estratégia e ter uma posição geopolítica». A posição de Portugal, defendeu, «sendo um país integrado na União Europeia, tem de ser uma opção atlântica». Porque «o Atlântico é, neste momento, central nas rotas, nos cabos submarinos, nos recursos, nas comunicações».
Desta forma, sendo o Atlântico norte central na geopolítica mundial, «Portugal tem de fazer uma opção e essa opção é simples: se quiser adotar uma política continental será periférico relativamente à Europa, ou seja se optar pela contenção da fronteira leste (como está a ser feito pela maioria dos países europeus, sobretudo no norte e centro da Europa, devido à ameaça da Rússia) será um país periférico; se optar por uma estratégia atlântica tem de fazer algo que é se posicionar».
Neste sentido, realçou que «Portugal, como um País descontinuado, tem algo que poucos países pequenos têm e que é a sua Geografia, ou seja, tem dois arquipélagos situados numa zona central da geopolítica mundial e essa centralidade dá-lhe uma capacidade de projetar poder».
Miguel Albuquerque lamenta que não haja, neste momento, uma estratégia e uma opção por parte de Portugal.
«Uma das responsabilidades do Presidente da República é definir, em conjugação com o Governo da República e com as forças vivas, qual é a estratégia que Portugal vai ter neste novo Quadro. É bom lembrar que Portugal vai receber 5.800 milhões de euros para o seu rearmamento. É isso que está previsto», frisou.
Mas, retomou o discurso, «o que importa conhecer é a opção a tomar». Porque, critica, «o que nós temos assistido, é a Portugal desinvestir sistematicamente nos dois arquipélagos que lhe dão projeto e que lhe podem dar projeção mundial na nova conjuntura».
Já antes da sua intervenção, na conversa com os jornalistas, Miguel Albuquerque tinha avisado: «Se Portugal continua a desinvestir, haverá consequências. Não é por acaso que as grandes potências e as potências médias olham, hoje, de outra maneira para os arquipélagos. Veja o que se está a passar agora na base da Terceira. Nos últimos dias já ali circularam mais de 500 aviões norte-americanos. Veja-se o que se está a passar relativamente aos cabos submarinos e a importância dos cabos submarinos que atravessam todas estas rotas. Vejam o que se está a passar relativamente à posição da Madeira relativamente ao sul, designadamente a África».
Aos jornalistas, o governante rejeitou ainda que o Porto Santo tenha perdido importância geoestratégica. E centralizou a questão: «O problema é saber se Portugal vai continuar a ser gerido de forma míope. Temos de olhar para a realidade».
Segundo o governante o que se passou recentemente com o subsídio social de mobilidade é exemplo desta falta de estratégia. «As pessoas percebem que esta posição do Governo da República sobre o subsídio de mobilidade é uma posição provinciana e anacrónica. Esta ideia ridícula de que o subsídio de mobilidade é um favor do Governo central relativamente à Madeira é uma ideia ridícula, que só pode caber num cérebro provinciano e que não faz ideia do que e a realidade», acusou.
Até porque, avisa, «a realidade é esta: as Região Autónomas são fundamentais, cada vez mais importantes, para a projeção de Portugal; e se Portugal continua a desinvestir nas Regiões Autónomas, alguém vai se aproveitar».
O líder madeirense diz que não está a falar em independência, assumindo que «falar em independência da Madeira não faz nenhum sentido».
«O que faz sentido é falar que se a República quiser continuar a desinvestir nas Regiões Autónomas, então tem de nos dar os instrumentos para que nós possamos ir buscar esses investimentos», advoga.
Miguel Albuquerque foi ainda questionado sobre a possibilidade de a Madeira vir a assumir os custos com o subsídio de mobilidade, tendo de imediato descartado essa opção.
«Não tem qualquer sentido. Aliás, nós já estamos a pagar os custos de soberania. Eu e todos os que residem cá. Basta ver que quem está a pagar os custos da medicação e dos tratamentos dos membros da GNR, da PSP e das Forças Armadas somos nós. Veja-se o estado em que Portugal deixa as esquadras de polícia daqui. Isto é uma vergonha», criticou.