A sustentabilidade deixou de ser um conceito abstrato para se afirmar como matéria de gestão nas empresas madeirenses. Foi esta a mensagem central transmitida hoje pelo secretário regional da Economia, José Manuel Rodrigues, no Colégio dos Jesuítas, no Funchal, no encerramento da sessão pública “Sustentabilidade no Empreendedorismo — O processo para a certificação ISO 21401”, promovida pela Direção Regional de Competitividade, Inovação e Sustentabilidade (DRCIS), organismo tutelado pela Secretaria Regional de Economia.
Numa economia em que o turismo ocupa um lugar determinante, a Madeira enfrenta o desafio de competir não pela quantidade de visitantes, mas pela qualidade da experiência, diferenciação e autenticidade, sem comprometer os recursos que sustentam essa criação de valor. “A sustentabilidade não deve ser acrescentada à estratégia de uma empresa; deve passar a fazer parte da forma como a empresa pensa a sua estratégia”, afirmou José Manuel Rodrigues, sublinhando que, quando isso acontece, a sustentabilidade “deixa de ser uma obrigação externa e passa a ser uma competência interna”.
A sessão colocou em evidência o papel da norma ISO 21401, que estabelece requisitos para a implementação de um sistema de gestão da sustentabilidade nos estabelecimentos de alojamento turístico, abrangendo as dimensões ambiental, social e económica. A versão actualmente em vigor foi confirmada pela ISO em 2025 e integra uma alteração específica, publicada em 2024, relativa à acção climática.
O secretário regional destacou que uma certificação não deve ser “um mero carimbo numa brochura”, mas sim um incentivo para que as organizações se olhem a si próprias com um grau de exigência que o funcionamento quotidiano muitas vezes não permite. “Aquilo que não se mede dificilmente se consegue gerir com rigor”, frisou, lembrando que esta é uma evolução já visível no turismo português, com o Turismo de Portugal a promover a integração de indicadores ambientais, sociais e de governação nos processos de gestão.
Papel da Administração Pública
Enquanto tutela da DRCIS, José Manuel Rodrigues deixou uma palavra de reconhecimento pelo trabalho que reuniu hoje empresários, entidades certificadoras e representantes do sector. E foi particularmente enfático ao definir o papel do Estado neste domínio: “O papel da Administração Pública não é dizer às empresas como devem gerir os seus negócios, é criar condições para que possam tomar melhores decisões, antecipar mudanças, conhecer os instrumentos disponíveis e elevar os padrões de competitividade”, afirmou.
Esta distinção, sublinhou o secretário regional, é fundamental para que as empresas encarem a sustentabilidade não como uma imposição, mas como uma oportunidade de reforço da competitividade. “Há uma razão económica para fazermos isto: a sustentabilidade exige investimento, é certo, mas a ausência de sustentabilidade também tem um custo, e esse custo será progressivamente mais visível numa economia dependente de recursos, sujeita à pressão climática, confrontada com novas exigências regulatórias e perante consumidores e mercados cada vez mais atentos à forma como os bens e serviços são produzidos”, explicou.
Estratégia Turismo 2035 e certificação EarthCheck
A Estratégia Turismo 2035 assume a sustentabilidade como uma dimensão transversal do desenvolvimento turístico, e não como um capítulo isolado da política para o sector. Esta mudança de perspectiva é particularmente pertinente na Madeira, que em agosto deste ano alcançou o Nível IV do Selo Prata da certificação EarthCheck, depois de uma auditoria realizada em junho, tendo estabelecido como próximo objetivo alcançar a certificação Ouro em 2027.
“Um destino sustentável não se constrói apenas através da administração pública. Constrói-se hotel a hotel, restaurante a restaurante, empresa a empresa, decisão a decisão”, salientou o secretário regional, reconhecendo o trabalho da DRCIS por ter reunido empresários, entidades certificadoras e representantes do sector para uma discussão que não deve terminar nesta sala.
A sessão contou com a participação de representantes da APCER — Associação Portuguesa de Certificação, da ACIF — Câmara de Comércio e Indústria do Funchal, e de unidades hoteleiras do Grupo Savoy Signature, que partilharam diferentes perspectivas e experiências relacionadas com a sustentabilidade e a certificação no sector empresarial. José Manuel Rodrigues destacou a importância de ouvir experiências concretas do tecido empresarial madeirense, sublinhando que “a experiência concreta vale, neste domínio, mais do que qualquer declaração de princípios”.
O secretário regional agradeceu à ACIF e à APCER a participação nesta sessão: à primeira, “porque representa uma parte essencial do tecido empresarial da Região”; à segunda, “porque a certificação só tem valor quando assenta em critérios reconhecidos, verificáveis e exigentes”.
Sustentabilidade como vantagem económica
O titular da Economia enumerou exemplos concretos de como a sustentabilidade se traduz em ganhos económicos: uma empresa que utiliza de forma mais eficiente a água e a energia reduz custos; uma empresa que gere melhor os resíduos reduz desperdício; uma empresa que conhece a sua cadeia de fornecimento reduz riscos; uma empresa que valoriza os seus trabalhadores retém conhecimento; uma empresa que conhece os seus impactos toma decisões mais informadas. “Nada disto é apenas ambiental. Tudo isto é economia”, concluiu.
O secretário regional saiu da sessão com uma convicção que considerou política e economicamente muito importante: “É esta mudança de paradigma que, estou certo, nos permitirá ir ainda mais longe; e é esse o trabalho que o Governo Regional, através da Direção Regional de Competitividade, Inovação e Sustentabilidade, continuará a procurar estimular: uma economia mais capaz de medir, de decidir, de inovar e de competir, sem confundir crescimento com consumo ilimitado de recursos”.
“A Madeira tem condições para fazer deste princípio uma vantagem económica concreta”, finalizou.