Na apresentação da obra, da autoria do Padre Aires Gameiro, O.H., Paula Margarido destacou o percurso de vida do sacerdote, psicólogo, investigador e escritor, a sua profunda ligação à Madeira e, em particular, à Casa de Saúde São João de Deus, bem como o contributo que tem dado para o estudo da saúde mental e para a preservação da história da presença da Ordem Hospitaleira na Região.
«O Padre Aires Gameiro não escreve apenas sobre hospitalidade. Escreve a partir de uma vida de hospitalidade», afirmou, recordando um percurso em que se cruzam três vocações («cuidar, estudar e escrever») e uma extensa produção bibliográfica e jornalística.
O livro, publicado pela Manufactura, reúne 18 ensaios monográficos dedicados a diferentes dimensões da vida e da ação de São João de Deus, abordando, entre outros temas, a proteção das crianças abandonadas, as mulheres marginalizadas, as pessoas idosas, os doentes e o voluntariado. Mais do que uma biografia convencional, propõe uma leitura do legado do fundador da Ordem Hospitaleira a partir da história, da espiritualidade, da saúde, da psicologia, da ética e da intervenção social.
Para percorrer esse legado, Paula Margarido escolheu três episódios e três verbos («ver, acolher e não desistir») que traduzem uma forma de cuidar que, apesar de nascida no século XVI, conserva uma particular atualidade.
Entre os episódios evocados, destacou o de uma criança abandonada que São João de Deus confiou aos cuidados de uma família e que continuou a visitar, procurando uma nova solução quando percebeu que não estava a ser devidamente cuidada. «Cuidar não é apenas encontrar uma resposta. É voltar. É acompanhar. É querer saber se aquilo que fizemos produziu realmente o bem que pretendíamos», sublinhou.
Salientou também a dimensão universal desse acolhimento, dirigido às pessoas independentemente da sua condição ou do julgamento social que sobre elas recaía. «A dignidade não é um prémio. Não depende da condição económica, da idade, da doença, do passado ou da aprovação dos outros. Pertence à pessoa porque é pessoa», afirmou.
A partir da obra, chamou ainda a atenção para o valor de cada vida e de cada gesto de cuidado. «Uma criança protegida conta. Uma pessoa idosa que deixa de estar sozinha conta. Uma pessoa com deficiência que conquista autonomia conta. Uma pessoa que consegue reconstruir a sua vida conta», referiu.
Neste sentido, realçou que o pensamento de São João de Deus não se esgota no espaço hospitalar, antes revela uma dimensão profundamente humana e comunitária, assente na presença, no acompanhamento e na capacidade de não desistir do outro.
No final, Paula Margarido agradeceu ao Padre Aires Gameiro o seu percurso, a ligação à Madeira e o contributo para a preservação da memória da Região, destacando a capacidade de, aos 97 anos, continuar a investigar, a escrever e a partilhar conhecimento.
«Cuidar começa, tantas vezes, por não passar indiferente», concluiu, desejando que o livro encontre muitos leitores e que a reflexão que encerra ultrapasse as suas páginas e se traduza na forma como cada pessoa olha e responde às vulnerabilidades dos outros.
Na sessão, realizada esta sexta-feira, 2 de outubro, na Reitoria da Universidade da Madeira, estiveram também presentes o Reitor da Universidade da Madeira, Sílvio Fernandes, o Bispo do Funchal, D. Nuno Brás, e a Diretora do Centro Assistencial da Casa de Saúde São João de Deus, Lisete Nunes.